domingo, 15 de Novembro de 2009

Uma história

Passei todos os vermelhos, como se fugisse. Na minha cabeça, no meu coração, as verdades não doíam. A vida é isto. A vida faz-nos isto. Que fazer?
Tentei dormir, cumprir a promessa. E a visão dos vermelhos todos que passei floresceu no meu peito. Lembrei-me dos pés dele. Da curva do pescoço. Da cicatriz. Dos caracóis que são como anjos a velar a minha noite.
E então esperei por todos os verdes. Em paz. Eu ia falar de amor.
E, à minha espera, a mais do que possibilidade de ter chegado outra vez tarde.
Quis saber. Para deixar o amor, de outros, em paz. Para fazer da minha dor algo com sentido.
Nada podemos contra o amor. É deixá-lo estar.
Do outro lado da linha em vez da resposta, a minha promessa incumprida.
Deste lado da linha os meus pés fizeram-se fortes como há muito tempo não eram.
Passei todos os vermelhos, porque queria chegar a casa. E descansar.
Deixar o amor dos outros em paz.
A chuva, lá fora, chorou por mim.

1 comentários:

bf disse...

"Nada podeis contra o amor,
Contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.
Podeis dar-nos a morte a mais vil,
isso podeis - e é tão pouco!"

Frente a Frente - Eugênio de Andrade